Como a esta altura todos sabem aquela irrelevante instituição chamada American Film Institute cometeu seu último atentado contra a história do cinema americano esta semana. E como eu sou um chato e adoro uma listinha resolvi fazer uma contra lista e como sou maluco e era fim de semana resolvi escrever algo sobre cada um dos 100 filmes. Curiosamente, eu decidi excluir os filmes que tivessem entrado na lista da AFI e depois descobri que os únicos que teriam entrado de qualquer jeito seriam Aurora e A General).
O Lírio Partido (D.W. Griffith,19)
Órfãs da Tempestade (D.W. Griffith,21)
Certa vez fiz um
artigo longo sobre Griffith no qual falo bastante sobre estes dois filmes. Com toda a discussões sobre montagem, Griffith nunca recebeu o devido crédito pela forma como era capaz de nos imergir no universo de seus personagens (ele esta muito mais próximo de Cassavetes do que Eisenstein). O Lírio Partido tem os maiores closes da história do cinema.
Nanook do Norte (Robert Flaherty,22)
Mais do que pai do documentário, Flaherty é ainda um dos grandes responsáveis pelo híbrido com a ficção e o filme de não-ficção lhe será eternamente grato por isso.
Sherlock Jr. (Buster Keaton,24)
Se
Duck Amuck fosse um filme live action, seria algo próximo desse filme.
Ouro e Maldição (Eric Von Stroheim,25)
Um dos mais manjados da lista e não tem nada que eu possa acrescentar as centenas de artigos já escritos sobre ele, mas o controle de tempo, atenção para detalhe e a crueldade de Stroheim continuam únicos.
Vento e Areia (Victor Sjostrom,28)
Na sua estadia hollywoodiana o maior cineasta sueco fez este monumento onde consegue até filmar o vento. Já
escrevi sobre ele na Contracampo.
Aleluia (King Vidor,29)
King Vidor é, sem dúvidas o mais subestimado dos cineastas americanos. Este musical negro é de uma intensidade religiosa única e permanece uma das influências chave do neo-realismo (assim como o próximo filme do diretor na lista). Sem Vidor provavelmente nunca teríamos Rossellini.
O Expresso de Shangai (Josef Von Sternberg,32)
Von Sternberg é um dos grandes decadentistas do cinema, mas ele também pinta com luz como quase ninguém.
Sócios no Amor (Ernst Lubitsch,33)
Ah, os bons tempos do cinema americano antes do Código Hayes começar a apontar o que os cineastas podiam filmar. Lubitsch provavelmente não seria Lubitsch sem a era pré-Código Hayes e este aqui em que Miriam Hopkins não consegue se decidir entre Gary Cooper e Fredric March e resolve se mudar para o apartamento dos dois é o melhor dele.
O Ultimo Chá do General Yen (Frank Capra,33)
Não sou o maior fã de Capra, mas este é um grande filme político sobre as relações oriente/ocidente. E é de uma secura e crueldade que ninguém esperaria do cineasta.
Juiz Priest (John Ford,34)
Will Rogers talvez seja o ator que melhor completa John Ford e este filme é um dos mais deliciosos retratos de uma comunidade que Ford fez e estes são geralmente os melhores trabalhos dele.
O Pão Nosso (King Vidor,35)
Entre os filmes feitos nos EUA sobre a depressão, esta pequena produção de Vidor sobre um sujeito que depois de falir monta uma fazenda comunitária é a melhor. E é uma excelente oportunidade de desenvolver a comunhão homem/natureza que tanto fascinava o cineasta.
A Cruz dos Anos (Leo McCarey,37)
Certa vez eu enviei uma cópia desse filme para um amigo que calhou de ir sem som. Ainda assim o sujeito viu o filme e me disse que ao final estava aos prantos. Sei que é uma heresia mas eu prefiro este filme de MaCarey aos de temática similar de Ozu.
Paraíso Infernal (Howard Hawks,39)
Todas as obsessões de Hawks encontram seu equilíbrio perfeito nesta aventura estóica sobre um bando de aviadores auto-exilados numa republiqueta sem nome se arriscando para fazer entregas de correio. É mais próximo em espírito (e estética) do primeiro Hemingway do que qualquer das adaptações do autor.
Como Era Verde o Meu Vale (John Ford,41)
Algumas vezes o Oscar acerta. Ford num dos seus mais experimentais ensaios poéticos sobre história e memória.
Dumbo (Ben Sharpesteen,41)
Eu exclui filmes de menos de 30 minutos portanto as melhores animações americanas não entraram, mas isto não é uma desculpa porque Dumbo é genuinamente um grande filme, a Disney no seu momento mais inventivo e insano.
As Três Noites de Eva (Preston Sturges,41)
A razão pela qual as comédias de Preston Sturges são mais engraçadas que as de Billy Wilder? Ele é bem mais imaginativo e generoso na hora de lidar com elenco coadjuvante.
Os Carrascos Também Morrem (Fritz Lang,43)
Quando eu escrevi um
artigo sobre Lang falei bastante desse filme que é meu favorito dele. É a caçada humana de M reinventada com um herói da resistência no lugar do serial killer. Com um maravilhoso roteiro de Brecht, é a melhor e mais efetiva peça de propaganda que Hollywood produziu na II Guerra justamente por ser a mais série, honesta, equilibrada e cruel possível.
O Diabo Disse Não (Ernst Lubitsch, 43)
Eu já disse como Lubitsch é um dos grandes safados do cinema?
Uma Aventura na Martinica (Howard Hawks,44)
Um dos primeiros experimentos de Hawks com o que eu chamo de formato jam session de jazz que se tornaria progressivamente dominante na obra dele. Basicamente é uma questão de usar um filme como desculpa para reunir um grupo de técnicos e atores e improvisar entre eles.
Laura (Otto Preminger,44)
Este policial romântico necrófilo concentra-se nas diferentes maneiras com que Preminger usa de estilo para trabalhar variadas gradações de obsessão.
Agora Seremos Felizes (Vincente Minnelli,44)
O melhor dos musicais de Minnelli provavelmente por ser aquele onde o lado mais pessimista da personalidade dele ser mais visível.
Almas Perversas (Fritz Lang,45)
Também tem bastante sobre esse naquele
texto sobre Lang. É um dos seus maiores e mais pessimistas pesadelos filmados. Trata-se talvez da maior representação de danação de todo o cinema.
Curva do Destino (Edgar G. Ulmer,45)
Um pesadelo tão grandioso quanto o de Lang, filmado com um centésimo do orçamento dele.
Os Sinos de Santa Maria (Leo MaCarey,45)
MaCarey é um mestre em usar digressão para construir personagem e ele emprega isso com tanta precisão aqui que o espectador talvez nem perceba que se trata de um filme sobre um padre apaixonado por uma freira. É provavelmente o melhor trabalho de Ingrid Bergman em um filme americano.
Paixão dos Fortes (John Ford,46)
A única afirmação objetiva em que acredito: não há cineasta maior do que John Ford. Não há prova maior disso do que inauguração da igreja e a dança entre Earp e Clementine neste filme.
Fuga do Passado (Jacques Tourneur,47)
Talvez o melhor e mais imaginativo de todos os ditos filmes noirs e o melhor trabalho de Robert Mitchum. A trama super elaborada é ótima, mas o que torna este um grande filme é cuidado de Tourneur com os detalhes e a maneira como até os extras são muito bem construídos.
Monsieur Verdoux (Charles Chaplin,47)
Confissão: prefiro os Chaplins sonoros aos mudos. Este é provavelmente o meu favorito. Como não amar um filme onde Chaplin interpreta um assassino de viúvas? Acho que nunca saberemos o quanto do roteiro de Welles sobrou no filme, mas o homem merece crédito só por ter tido esta idéia.
A Mulher Desejada (Jean Renoir,47)
Outro sobre o qual já
escrevi na Contra. Não acreditem em quem diz que o Renoir americano é fraco. Este poema pornográfico foi uma espécie de resposta a Almas Perversas (que era um remake de A Cadela). O filme não tem nenhuma coerência narrativa, mas como tratado sobre o desejo permanece insuperável.
Sua Única Saída (Raoul Walsh,47)
A carreira de Raoul Walsh é muito irregular, mas ele fez várias obras primas na década de 40, minha favorita sendo este faroeste de vingança estrelado por Mitchum que estava surpreendentemente próximo dos policiais que o ator fazia na época.
Carta de Uma Desconhecida (Max Ophuls,48)
O melhor dos filmes americanos de Ophuls. Esqueçam qualquer discussão sobre travellings, a maior habilidade de Ophuls era tirar de suas tramas de romantismo obsessivo qualquer sinal de cinismo.
A Dama de Shangai (Orson Welles,48)
Os melhores filmes de Welles foram feitos sem grana no exílio, mas isto porque ele foi ficando cada vez mais genial depois de velho, mas este thriller é maravilhoso e provavelmente mais convencionalmente prazeroso filme que ele fez.
A Força do Mal (Abraham Polonsky,48)
Acho que quem esta acostumado a me ler deve estar cansado de me ver babar ovo para este filme (ele até entrou duas vezes seguidas no tops da Paisà). Mas este poético melodrama policial anti-capitalista merece.
Retrato de Jennie (William Dieterle,48)
Eu confesso ter grande queda por filmes de amor louco. David Selznick também. Resultado a cada dois ou três anos ele tentava reproduzir o sucesso de E o Vento Levou... com uma superprodução romântica excêntrica e invariavelmente quebrava a cara. Esta é a melhor delas, com Dieterle colocando para excelente uso os anos que teve como assistente de Murnau.
Sangue de Heróis (John Ford,48)
A obra de Ford é dominada por dois tipos de obras-primas: há os filmes de retrato de comunidade e os filmes sobre memória e história. Este é o que provavelmente melhor equilibra ambas as partes.
A Costela de Adão (George Cukor,49)
Todos os veículos para Spencer Tracy e Katherine Hepburn que tiveram a sorte de serem dirigidos por George Cukor são ótimos, mas este é o melhor, mais engraçado e bem observado. A trama foi reprisada quase que anualmente desde então, mas o filme não perde nada do seu frescor.
Sob Signo de Capricórnio (Alfred Hitchcock,49)
Basicamente um filme experimental sobre perspectiva com uso ainda mais sofisticado de plano seqüência do que Festim Diabólico. È meu Hitchcock favorito, mas aviso que é bem incomum dentro da filmografia dele.
Caravana de Bravos (John Ford,50)
O filme favorito de Ford entre seus próprios é este pequeno faroeste sobre dois pistoleiros conduzindo uma caravana de colonos mórmons. As vezes é o meu também.Uma adorável tradução da idéia de civilização em movimento.
No Silêncio da Noite (Nicholas Ray,50)
Duas informações sobre o melhor filme de Nicholas Ray: a) o apartamento do roteirista auto destrutivo, alcoólatra e com tendências violentas pertencia a Ray. b) Gloria Grahame se divorciou do cineasta no meio das filmagens.
Stars in my Crown (Jacques Tourneur,50)
Tourneur faz um filme de Ford. As lembranças de um garoto sobre ser criado por um pastor numa pequena cidade americana. Extremamente sentimental, quase desprovido de trama a parte de uma sucessão de incidentes, e mais preocupado em observar com o olhar dos melhores retratistas.
Cinzas que Queimam (Nicholas Ray,51)
O complemento perfeito de No Silêncio da Noite, ao mesmo tempo mais brutal e um pouco mais esperançoso.
Man in the Saddle (André De Toth,51)
Confesso que não me lembro nada da trama desse filme, mas as imagens dele e palpável sensação de violência prestes a explodir seguem firmes na memória.
Da Mesma Carne (George Cukor,52)
O melhor filme de Cukor e o melhor filme sobre casamento feito em Hollywood.
A Dama de Preto (Samuel Fuller,52)
A ode de Fuller aos pioneiros do jornalismo americano. È tão idealista que nem parece um filme do diretor, mas seu entusiasmo é contagiante. E é tão eficaz quanto qualquer um dos thrillers pulp que ele realizou.
Luzes da Ribalta (Charles Chaplin,52)
Ainda espero um dia escrever um livro sobre cineastas-atores e este seria o filme central dele. É um dos grandes ensaios sobre o corpo do cinema (e um dos filmes mais egocêntricos também).
Eles e Elas (Joseph L. Mankiewickz,55)
O mais torto dos filmes de Mankievickz, o mais vulgar, vulnerável e teatral e por isso mesmo o melhor com o cineasta abraçando o que sabe fazer melhor. Eu nunca gostei de Marlon Brando tanto quanto enquanto ele tenta cantar aqui (com Mankiewickz perversamente mantendo Frank Sinatra longe dos grandes números o filme todo).
Homem Sem Rumo (King Vidor,55)
Os filmes de pós-Guerra de Vidor são invariavelmente intensos, excessivos e obcecados por sexo. Este faroeste libertário não é exceção (e com a possível exceção da versão dele de Guerra em Paz, excluída da lista por sua nacionalidade ser questionável, o melhor deles).
O Homem Errado (Alfred Hitchcock,56)
Um verdadeiro tratado sobre as obsessões de Hitchcock.
A Morte num Beijo (Robert Aldrich,56)
Este noir literalmente apocalíptico é Robert Aldrich no seu melhor e mais perverso.
O Incrível Homem que Encolheu (Jack Arnold,57)
Um grande conceito que Arnold explora a perfeição neste que é um dos mais belos filmes Bs já feitos.
Will Success Spoil Rock Hunter? (Frank Tashlin,57)
Pergunta: "Do que os seus filmes tratam?" Tashlin: "Daquela coisa que nós chamamos de civilização". O ponto mais alto das deliciosamente vulgares sátiras sobre a nossa vulgaridade que Tashlin fez.
Almas Maculadas (Douglas Sirk,58)
A vida desgarrada de uma família de pilotos de avião de exibição neste que talvez seja o único filme de Sirk fácil de defender para os não-convertidos (acho que a maior parte das pessoas até concordariam que Rock Hudson esta genuinamente bem aqui). A fotografia em cinemascope preto e branco por si só vale o filme, mas ele tem muitas outras qualidades a começar pela precisão do olhar do diretor.
Deus Sabem o Quanto Amei (Vincente Minnelli,58)
O grande paradoxo dos melodramas de Minnelli é como tão preciso quanto ele seja com emoção, ele chega lá essencialmente ao tratar atores, objetos, locações e cores como se fosse uma massa intercambiável a sua disposição.
A Marca da Maldade (Orson Welles,58)
Eu não preciso realmente escrever sobre esse, né?
O Pequeno Rincão de Deus (Anthony Mann,58)
As obsessões formais/geológicas de Anthony Mann estão no auge neste excêntrico e excessivo filme protagonizado por um possuído Robert Ryan.
Reinado de Terror (Joseph H. Lewis,58)
Este faroeste impressionista merecia a vaga nem que fosse só pelo duelo final com o herói armado de um arpão.
Buchanan Rides Alone (Budd Boetticher,59)
Meu favorito entre os faroestes que Boetticher fez com Randolph Scott. Ao mesmo tempo formalmente rigoroso com uma grande preocupação com geometria dos espaços (a idéia de fronteira é central no filme) e entrecortado por momentos de grande humor.
Imitação da Vida (Douglas Sirk,59)
Um grande e superficial ensaio sobre superfície.
O Quimono Escarlate (Samuel Fuller,59)
O filme que o jovem Godard tentou várias vezes fazer. Um perverso pequeno thriller sobre racismo.
Rio Bravo (Howard Hawks,59)
Escrevi um
texto sobre Rio Lobo em que falo bastante de Rio Bravo. É o filme com o qual ele rompeu de vez suas preocupações com narrativa e também aquele onde o universo e os valores hawksianos são apresentadas de sua forma mais idealista e romântica.
O Mensageiro Trapalhao (Jerry Lewis,60)
Mais um que já
escrevi na Contra. Estréia de Lewis na direção fazendo grande uso de seu principal elemento de cena: Jerry Lewis.
Hatari! (Howard Hawks,62)
Hawks vai a África filmar o mais alegre dos funerais. Meu filme favorito.
O Homem que Matou o Facínora (John Ford,62)
O grande filme de Ford sobre a construção de história, e também um majestoso funeral para uma velha Hollywood em ruínas e um exercício modernista bastante próximo do que esperaríamos de um Manoel de Oliveira.
Tempestade Sobre Washington (Otto Preminger,62)
O melhor dos ambiciosos painéis de analise das grandes instituições americanas que Preminger fez. É o mais detalhado e honesto retrato de como sistema político funciona que nós temos (muito por ser completamente desprovido de ideologia).
Convite ao Pistoleiro (Richard Wilson,64)
Provavelmente o filme mais obscuro da lista (mesmo contando os não-narrativos), trata-se de um pequeno faroeste de esquerda dirigido por um ex-assistente de Welles. Uma perola que merecia ser redescoberta.
Dog Star Man (Stan Brahkage,61-64)
Este lírico filme sobre um homem tentando subir uma montanha é um dos melhores e mais ambiciosos trabalhos sensoriais de Brahkage.
Lillith (Robert Rossen,64)
O último filme de Rossen em que todo o cuidado que o cineasta tem com a construção de seqüências é usada não nos secos melodramas sociais que fizeram seu nome, mas numa insana trama de amor louco.
My Hustler (Andy Warhol,65)
Warhol como Griffith e Flaherty faz filmes sobre o mistério da presença e como ele é mestre em captar a expressividade de seus atores.
Ride in the Whirlwind (Monte Hellman,65)
O mais straubiano filme americano.
Sete Mulheres (John Ford,66)
Como a maioria dos últimos filmes dessa lista, Sete Mulheres é orgulhosamente arcaico. É um dos mais eficazes e econômicos do cineasta. Quase abstrato na forma como apresenta seus temas e ao mesmo tempo de rara precisão narrativa.
A Queima Roupa (John Borman,67)
Lee Marvin, arquitetura modernista, montagem a Resnais e altas doses de violência.
Um Caminho para Dois (Stanley Donen,67)
Petulia (Richard Lester,68)
Dois exemplares do filme hollywoodiano que soube absolver as influências dos cinemas novos. Ambos são romances maduros, acronológicos, com uma atenção especial para capturar bem a ambiência das suas locações e contam com trabalho excepcional dos seus protagonistas (Albert Finney e Audrey Hepburn no primeiro, George C. Scott e Julie Christie no último).
Madigan - Os Impiedosos (Don Siegel,68)
O melhor trabalho de Siegel é este brutal e detalhista policial contrastando um fim de semana de um detetive e de um comissário de policia.
O Amor é Tudo (Irvin Kershner,70)
Este filme de Kershner é uma espécie de antítese da maior parte do cinema americano dos anos 70, deixando de lado qualquer preocupação em impressionar, demarcar sua importância e demonstrar como o cineasta hábil. No lugar disso, o filme trabalha de forma a cuidadosamente imaginar cada detalhe cena a cena e trabalhar por acumulação até sua conclusão inevitável.
The Act of Seeing with One Own Eyes (Stan Brahkage,71)
Os 32 minutos de silêncio mais perturbadores do cinema, em que ao filmar secamente uma série de autopsias Brahkage estabelece uma verdadeira experiência física de intimidade entre o nosso olhar e o corpo humano.
Corrida sem Fim (Monte Hellman,71)
Em algum lugar entre Robert Bresson e Roger Corman reside este mais inventivo dos road movies.
Grissom Gang (Robert Aldrich,71)
Quando Robert Aldrich ganhou uma fortuna com Os Doze Condenados fez algo que praticamente nenhum outro cineasta faria: torrou tudo numa série de filmes nada comerciais e extremamente pessimistas onde ele filtrava o material de gênero para que o que este tinha de mais vulgar, grosseiro, cruel e perverso pudesse representar o descontentamento do cineasta. E se Aldrich já estava filmando o fim do mundo em 56, ele era um homem especialmente puto a altura de 1971. Grissom Gang com sua singela história sobre a jovem herdeira que é seqüestrada por uma gangue de boçais e se apaixona na base da porrada pelo mais nerdental deles finalmente levou Aldrich a falência (apesar dele ter insistido na tentativa de convencer estúdios abancarem este tipo de material até O Último Brilho do Crepusculo em 76).
Reminicences of a Journey to Lithuania (Jonas Mekas,71)
Um travelógo autobiográfico sobre o retorno de Mekas a cidade lituana em que fora criado após 25 anos nos EUA. É um grande ensaio sobre memória, cultura e deslocamento, assim como um dos melhores filmes sobre exílio que conheço.
Pat Garrett & Billy the Kid (Sam Peckinpah,73)
Este excêntrico e elegíaco faroeste não é o que se convencionou como
um filme de Peckinpah, mas não apenas é o seu filme mais bem sucedido como o que dá mais espaço para suas obsessões.
O Exército de Extermínio (George Romero,73)
Quando Romero fez este especialmente perverso filme de horror, ele certamente tinha uma alegoria sobre o Vietnã em mente, mais de 30 anos depois, o lado mais óbvio da sua alegoria se transformou em algo muito mais fluído e politicamente incisivo: a questão que esta na sua essência "o que você considera uma perda aceitável em favor do bem da comunidade?" permite que o filme se aplique a quase qualquer coisa (digamos, a violência de São Paulo). È o filme mais assustador que eu conheço.
Uma Mulher sobre Influência (John Cassavetes,74)
A Morte do Bookmaker Chinês (John Cassavetes,76)
Como Cassavetes é um dos temas recorrentes deste blog basta dizer que qualquer discussão séria sobre cinema dos últimos 40 anos começa por ele e este são os seus dois melhores filmes.
Trágica Obsessão (Brian De Palma,76)
Outro que eu já
escrevi sobre. O mais operatico filme de De Palma num thriller melodramático mais próximo de Minnelli do que Hitchcock.
FBI - Arquivo Secreto (Larry Cohen,77)
Subversão a Larry Cohen: reler cinqüenta anos de história americana como um filme de gangster (com direito a cada presidente do período ser encarnado por atores que geralmente interpretam mafiosos).
A Ilha do Adeus (Franklin Schafner,77)
É uma pena que Franklin Schafner contentar-se com freqüência com tão pouco (um ano depois desta obra-prima ele estava de volta com uma bobagem como Meninos do Brasil), porque ele tinha um olhar preciso e cuidadoso que sempre vinha a tona quando ele dispunha de belo material como aqui.
Fedora (Billy Wilder,78)
O lamento de Wilder sobre o fim da velha Hollywood é o seu mais belo filme. Um orgulhosamente arcaico filme, que parece existir como peça de resistência de uma era a muito ultrapassada. Um filme funéreo de uma paixão e convicção inexistente no resto da obra do seu diretor.
Killer of Sheep (Charles Burnett,78)
O dia a dia de um funcionário de abatedouro e sua família neste que é um dos mais belos trabalhos de imersão do cinema (tão grande e simples quanto o melhor Kiarostami).
All That Jazz (Bob Fosse,79)
Fosse faz a sua versão de Luzes da Ribalta ao mesmo tempo muito mais impiedosa e generosa.
O Portal do Paraiso (Michael Cimino,80)
É interminável, supercontrolado e incapaz de gerar qualquer crescendo narrativo, mas este faroeste viscontiano de Cimino é um fascinante OVNI que consegue fazer valer suas grandes ambições.
Muito Riso e Muita Alegria (Peter Bogdonovich,81)
O Duas Garotas Românticas americano.
O Cão Branco (Samuel Fuller,82)
O último e possivelmente melhor filme americano de Fuller onde os principais temas e obsessões do cineasta são confrontado de maneira direta e incisiva.
Honkytonk Man (Clint Eastwood,82)
Entre os pequenos filmes que Eastwood convenceu a Warner a financiar ocasionalmente, este é meu favorito. Um agridoce road movie sobre um cantor country tuberculoso durante a grande depressão que consegue ser ao mesmo tempo leve, nostálgico e profundamente triste.
Amantes (John Cassavetes,84)
O testamento de Cassavetes.
Eles Vivem (John Carpenter,88)
Olivier Assayas já descreveu a geração de Carpenter/Romero/Cronenberg como o análogo cinematográfico de punk rock. A definição nunca foi mais verdadeira do que aqui.
O Rei de Nova York (Abel Ferrara,90)
O nosso Nosferatu.
Um Mundo Perfeito (Clint Eastwood,93)
Não há nada no cinema americano narrativo recente tão inventivo quanto qualquer cena entre Costner e o garoto neste filme.
The Addiction (Abel Ferrara,95)
Ferrara é um cineasta rosseliniano que assim como Pasolini e Fassbinder (dois cineastas com os quais ele tem muito em comum) passou a obra inteira trabalhando a questão "o que é o mal e como nossa história parece progressivamente dedicada a sistematiza-lo". The Addiction é o seu tratamento mais teórico do tema e um dos melhores também.
De Olhos Bem Fechados (Stanley Kubrick,99)
Kubrick faz com Breve Romance de Sonho algo similar ao que Manoel de Oliveira fez com Madame Bovary em O Vale Abrãao.
Cidade dos Sonhos (David Lynch,01)
Assim como Fedora, Cidade dos Sonhos é na essência uma atualização de Crepúsculo dos Deuses. Lynch leva o material ainda mais próximo do filme de horror, mas não há nada de fantástico na abordagem do cineasta, ele trata todo o material como uma versão apenas levemente estilizada do seu referente.
Como o Ailton, mencionou de baixar filmes achei que era uma boa ideia incluir os títulos em inglês dos filmes se alguém quiser procurar no E-Mule (onde imagino 90% exista):
Broken Blossoms (D.W. Griffith,19)
Orphans of the Storm (D.W. Griffith,21)
Sherlock Jr. (Buster Keaton,24)
Greed (Eric Von Stroheim,25)
The Wind (Victor Sjostrom,28)
Hallejulah (King Vidor,29)
Shanghai Express (Josef Von Sternberg,32)
Design for Living (Ernst Lubitsch,33)
The Bitter Tea of General Yen (Frank Capra,33)
Judge Priest (John Ford,34)
Our Daily Bread (King Vidor,35)
Make Way for Tomorrow (Leo McCarey,37)
Only angels Have Wings (Howard Hawks,39)
How Green Was my Valley (John Ford,41)
Dumbo (Ben Sharpesteen,41)
The Lady Eve (Preston Sturges,41)
Hangmen Also Die (Fritz Lang,43)
Heaven Can Wait (Ernst Lubistch, 43)
To Have and to Have Not (Howard Hawks,44)
Laura (Otto Preminger,44)
Meet me in St. Louis (Vincente Minnelli,44)
Scarlet Street (Fritz Lang,45)
Detour (Edgar G. Ulmer,45)
The Bells of St. Marys (Leo MaCarey,45)
My Darling Clementine (John Ford,46)
Out of the Past (Jacques Tourneur,47)
Monsieur Verdoux (Charles Chaplin,47)
Woman on the Beach (Jean Renoir,47)
Persued (Raoul Walsh,47)
Letter from a Unknown Woman (Max Ophuls,48)
The Lady from Shanghai (Orson Welles,48)
Force of Evil (Abraham Polonsky,48)
Portrait of Jennie (William Dieterle,48)
Fort Apache (John Ford,48)
Adam's Rib (George Cukor,49)
Under Capricorn (Alfred Hitchcock,49)
Wagon Master (John Ford,50)
In a Lonely Place (Nicholas Ray,50)
Stars in my Crown (Jacques Tourneur,50)
On Dangerous Ground (Nicholas Ray,51)
Man in the Saddle (André De Toth,51)
The Marrying Kind (George Cukor,52)
Park Row (Samuel Fuller,52)
Limelight (Charles Chaplin,52)
Guys and Dolls (Joseph L. Mankiewickz,55)
Man Without a star (King Vidor,55)
The Wrong Man (Alfred Hitchcock,56)
Kiss me deadly (Robert Aldrich,56)
The Incredible Shrinking Man (Jack Arnold,57)
Will Success Spoil Rock Hunter? (Frank Tashlin,57)
The Tarnished Angels (Douglas Sirk,58)
Some Came Running (Vincente Minnelli,58)
Touch of Evil (Orson Welles,58)
God's Little Acre (Anthony Mann,58)
Terror in Texas Town (Joseph H. Lewis,58)
Buchanan Rides Alone (Budd Boetticher,59)
Imitation of Life (Douglas Sirk,59)
The Crimson Kimono (Samuel Fuller,59)
Rio Bravo (Howard Hawks,59)
The Bellboy (Jerry Lewis,60)
Hatari! (Howard Hawks,62)
Advise and Consent (Otto Preminger,62)
The Man Shot Liberty Valance (John Ford,62)
Invitation to a Gunfighter (Richard Wilson,64)
Dog Star Man (Stan Brahkage,61-64)
Lillith (Robert Rossen,64)
My Hustler (Andy Warhol,65)
Ride in the Whirlwind (Monte Hellman,65)
Seven Women (John Ford,66)
A Point Blank (John Borman,67)
Two for the Road (Stanley Donen,67)
Petulia (Richard Lester,68)
Madigan (Don Siegel,68)
Loving (Irvin Kershner,70)
The Act of Seeing with One Own Eyes (Stan Brahkage,71)
Two-Lane Blacktop (Monte Hellman,71)
Grissom Gang (Robert Aldrich,71)
Reminicences of a Journey to Lithuania (Jonas Mekas,71)
Pat Garrett & Billy the Kid (Sam Peckinpah,73)
The Crazies (George Romero,73)
A Woman Under the Influence (John Cassavetes,74)
The Killing of the chinese Bookie (John Cassavetes,76)
Obsession (Brian De Palma,76)
The Private Files of J. Edgar Hoover (Larry Cohen,77)
Island of the Stream (Franklin Schafner,77)
Fedora (Billy Wilder,78)
Killer of Sheep (Charles Burnett,78)
All That Jazz (Bob Fosse,79)
Heaven's Gate (Michael Cimino,80)
They All Laughed (Peter Bogdonovich,81)
White Dog (Samuel Fuller,82)
Honkytonk Man (Clint Eastwood,82)
Love Streams (John Cassavetes,84)
They Live (John Carpenter,88)
King of New York (Abel Ferrara,90)
A Perfect World (Clint Eastwood,93)
The Addiction (Abel Ferrara,95)
Eyes Wide Shut (Stanley Kubrick,99)
Mulholland Dr. (David Lynch,01)